Fim
Encontro-me neste momento no Burger King do aeroporto de Zurique. Não é a primeira vez que aqui estou. É a quarta vez que o stop over é em Zurique e, em todas as quatro vezes, comi neste restaurante maravilhoso.
Vou dizer uma coisa óbvia. Não consigo acreditar que este ano acabou. Tenho a sensação que voou, embora saiba que não. Tantas vezes quis que este momento chegasse depressa. Tantas vezes quis que se demorasse. E agora sinto-me apática. Não sei o que pensar, se ria, se chore. Foi um ano intenso, rico em experiências, desgastante em algumas alturas, absolutamente perfeito noutras.
Como não sorrir ao pensar na chegada a Veneza, a sensação de estar noutro planeta, o arrastar dos meus 40 kgs de bagagem pelas pontes e escadas de Giudecca, completamente desorientada num labirinto totalmente desconhecido. Pouco a ponto a estranheza foi desaparecendo mas, apesar das óptimas recordações do Lido, para onde me mudei passado um mês, a bucólica Veneza é a que fica gravada na memória. O Inverno frio e húmido, o vento cortante na minha cara ao percorrer a Riviera San Nicolo em direcção ao Mosteiro com o mesmo nome onde tinha as aulas. A melancolia de uma outrora luxuosa estância balnear, hoje decadente e, de qualquer forma, deserta no Inverno. A presença de 90 estudantes a falar línguas estranhas, todos com uma ridícula mochila cor-de-laranja não passou despercebida.
O momento alto do ano foi, sem dúvida, a viagem de estudo que fizemos ao Kosovo. Não posso dizer que tenha visto a guerra de perto, mas descobri-a na cara e no sorriso dos Kosovares. Pristina foi uma agradável surpresa. Um sítio onde não me importaria de passar uma longa temporada. O potencial humano é enorme, a larga maioria da população tem menos de 25 anos. Sinto uma impaciência e uma desmotivação aflitiva nas caras bonitas das jovens que nos recebem. Isso e uma condescendência educada quando se fala em viver em paz com quem há pouco tempo lhes matava, violava e torturava os familiares. Embora, no fundo, saibam que não há bons nem maus em toda esta confusão, apenas fortes e fracos. Os fracos do passado são os fortes do presente. E o adjectivo vai-se tornado tão relativo à medida que o tempo vai passando…
Os quiet days in Styria que se seguiram foram mesmo isso – tranquilos. Assombrados pela insegurança de ter de fazer uma tese de 30 000 palavras em quatro meses, com um tema considerado pouco simpático por um orientador, esse sim, muito simpático, mas tão pouco eficaz…
As coisas acabaram por correr bem e os quatro meses revelaram-se suficientes, para o que a minha parca vida social muito contribuiu. A Áustria não é um país pelo qual tenha particular simpatia ou carinho. Gosto de cidades grandes e rapidamente perdi o fascínio por tanto verde. Os highlights da Áustria, não necessariamente por esta ordem:
1. O pão (a sério, em mais lado nenhum tanta variedade e tão bom. Para uma viciada em pão com manteiga este tinha de vir em primeiro lugar)
2. As viagens de comboio
3. VIENA!
4. A organização e a funcionalidade que não se tornam aborrecidas, um equilíbrio difícil de conseguir, perguntem aos Suíços.
5. Graz. Uma cidade à qual falta um bocadinho de personalidade, na minha opinião, mas onde não é difícil uma pessoa sentir-se bem.
Tento convencer-me que ainda não acabou, afinal ainda temos a defesa da tese em Setembro, um reencontro onde tudo começou, no Salão Nobre do Palazzo Ducale. Mas não. Acabou mesmo. Isso será apenas um fim-de-semana em que curtiremos todos uma alegre nostalgia. Vou buscar uma jola e brindar sozinha a uma nova fase que se quer iniciada com optimismo. Nova cidade, desta vez a minha, novo emprego, novos amigos, velhos amigos, novos membros na família… TU.
The End
(Escrito a 15 de Julho)









